Por Redação – Tribuna da Cidade
Créditos: Beto Preto – Ex – Secretário de estado da Saúde do Paraná

Há decisões que não cabem apenas na razão. Elas carregam peso, silêncio e, muitas vezes, resistência até mesmo dentro de casa. Foi assim que começou um dos capítulos mais marcantes da saúde pública do Paraná nos últimos anos. Em 2018, no auge de um segundo mandato como prefeito, com mais de 90% de aprovação popular, veio a decisão de deixar uma gestão consolidada para assumir um dos maiores desafios da administração estadual: a Secretaria de Estado da Saúde.
A reação mais simbólica não veio da política, mas da família. O silêncio do pai, que durou uma semana inteira, traduziu o tamanho da mudança. Um silêncio carregado de preocupação, de experiência e de entendimento do peso daquela escolha. Até que, em um gesto simples e definitivo, surgiu uma caneta. Não era apenas um objeto. Era uma autorização silenciosa. Um sinal de apoio. Era com ela que seria assinada a posse que mudaria não apenas uma trajetória pessoal, mas também o rumo da saúde pública no Estado.
A decisão de aceitar o convite do governo estadual não foi movida por ambição, mas por um princípio que já guiava a gestão municipal: aproximar a saúde das pessoas. O que antes era um modelo de atuação “do bairro para o centro”, em Apucarana, passou a ganhar escala. Tornou-se um projeto de Estado. Um movimento que partia do interior para alcançar todo o Paraná, rompendo barreiras históricas de acesso.
A experiência como prefeito deixou marcas importantes. Uma delas foi simbólica e, ao mesmo tempo, reveladora: durante seis anos de gestão, apenas uma ambulância foi recebida do governo estadual para atender uma população de aproximadamente 140 mil habitantes. Não como crítica, mas como referência. Um parâmetro claro de tudo o que ainda precisava ser feito.
E foi exatamente essa referência que orientou uma das maiores transformações estruturais da saúde no Paraná. Ao longo da gestão estadual, mais de 8 mil veículos foram entregues aos municípios, incluindo ambulâncias, vans e unidades móveis, promovendo a maior renovação de frota da história do Estado. O SAMU, que antes operava de forma limitada, passou a cobrir integralmente o território paranaense. Não se tratava apenas de logística, mas de garantir presença, resposta e dignidade onde antes havia ausência.
Mas nenhum planejamento, por mais estruturado que fosse, estava preparado para o que viria em 2020. A pandemia da covid-19 impôs o maior teste da história recente da saúde pública. Um desafio técnico, humano e emocional. A gestão enfrentou não apenas a complexidade da crise sanitária, mas também o peso das perdas, das decisões urgentes e da responsabilidade coletiva.
Foram tempos em que números deixaram de ser apenas estatísticas e passaram a representar vidas. Famílias interrompidas, histórias abreviadas e uma sociedade inteira em estado de alerta. Em meio a esse cenário, a condução da política de saúde exigiu escolhas firmes. E a principal delas foi clara: seguir a ciência.
Enquanto outros estados enfrentavam crises administrativas e escândalos, o Paraná adotou uma linha técnica, baseada em evidências e organização estrutural. Não foi um caminho fácil, mas foi consistente. E foi justamente essa consistência que permitiu atravessar o período mais crítico mantendo um mínimo de estabilidade dentro do caos.
Com o avanço da vacinação e a redução dos impactos mais severos da pandemia, um novo desafio surgiu: a fila represada de procedimentos. Milhares de paranaenses aguardavam cirurgias e atendimentos interrompidos durante a crise sanitária. Foi nesse contexto que nasceu o programa Opera Paraná, que rapidamente se tornou o maior programa de cirurgias eletivas do país, realizando cerca de 100 procedimentos por hora. Mais do que números, isso representava vidas sendo retomadas, mobilidade sendo devolvida e qualidade de vida sendo reconstruída.
Paralelamente, o Estado avançou em infraestrutura. Foram mais de mil obras na área da saúde, entre novos hospitais, ampliações, reformas e unidades especializadas. Um processo que não apenas expandiu a rede, mas também elevou o padrão de atendimento em diversas regiões.
O resultado desse conjunto de ações se refletiu em um dado histórico: o Paraná passou a ter uma das melhores avaliações de saúde pública do país. Um reconhecimento que vai além de indicadores técnicos e revela um modelo de gestão baseado em planejamento, execução e foco no cidadão.
No entanto, por trás dos números, existe uma narrativa que não pode ser ignorada. A história não é sobre cargos ou estatísticas. É sobre pessoas. Sobre o acesso que antes não existia. Sobre o atendimento que chega mais rápido. Sobre a distância que foi encurtada entre o cidadão e o sistema de saúde.
Ao olhar para trás, a decisão tomada em 2018 deixa de ser apenas um movimento político e passa a ser compreendida como um ponto de inflexão. Um momento em que a dificuldade foi maior que a zona de conforto. E, justamente por isso, necessária.
No fim, aquela caneta carregava mais do que tinta. Carregava confiança. E, acima de tudo, responsabilidade.
EDITORIAL

Grandes transformações quase nunca nascem em ambientes confortáveis. Elas surgem no conflito, na dúvida, no silêncio. E, muitas vezes, começam longe dos gabinetes, dentro de casa, em conversas não ditas, em olhares que questionam escolhas difíceis.
A história que envolve a condução da saúde pública no Paraná nos últimos anos é, antes de tudo, um retrato de decisão. Uma decisão que rompeu com a estabilidade para enfrentar o desconhecido. E, nesse processo, mostrou algo que a política frequentemente esquece: gestão pública não é sobre cargos, é sobre impacto real na vida das pessoas.
A pandemia escancarou fragilidades em todo o país. Mostrou limites, revelou falhas e expôs sistemas inteiros à prova máxima. Nesse cenário, o que diferenciou estados não foi apenas estrutura, mas postura. Escolher a ciência, manter coerência e sustentar decisões técnicas em meio à pressão foi, mais do que uma estratégia, um compromisso.
Mas o verdadeiro legado não está apenas na resposta à crise. Está no que veio depois. Na capacidade de reorganizar, reconstruir e avançar. Programas estruturantes, expansão de serviços e investimentos concretos não são apenas números em relatórios — são evidências de que houve direção.
A política, quando bem conduzida, deixa marcas que não aparecem apenas em discursos. Elas estão no tempo de espera reduzido, no atendimento que chega, na vida que continua.
E talvez esse seja o ponto central de toda essa trajetória: entender que governar é encurtar distâncias. Entre o Estado e o cidadão. Entre a necessidade e a resposta. Entre o problema e a solução.
No fim, não foi apenas uma caneta que assinou uma posse. Foi um compromisso que precisou ser honrado todos os dias.
E quando isso acontece, a política deixa de ser promessa e passa a ser resultado.
Créditos: João Zisman e Marcello Sampaio







Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.