
Nepotismo, falta de qualificação técnica e possível conflito de interesses colocam gestão da companhia sob suspeita
Uma recomendação administrativa emitida pelo Ministério Público do Estado do Paraná lança uma série de questionamentos graves sobre a gestão da Companhia Municipal de Habitação de Araucária (COHAB). O documento, vinculado ao Inquérito Civil nº 0010.25.001532-7, aponta possíveis irregularidades na nomeação de diretores e levanta suspeitas de descumprimento da Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016).
De acordo com a promotoria, há indícios de que os atuais dirigentes da companhia não atendem aos requisitos técnicos mínimos exigidos por lei, o que pode comprometer a legalidade das nomeações e a própria gestão do órgão público.
Falta de qualificação técnica é um dos principais pontos
O Ministério Público aponta que o diretor-técnico da COHAB, Matheus de Faria Blaszczak, não possui a experiência mínima exigida para o cargo. A legislação determina pelo menos 10 anos de atuação na área ou 4 anos em cargos de chefia superior, critérios que não teriam sido comprovados.
Além disso, a promotoria destaca que a formação do diretor não é compatível com a função técnica exercida, o que, segundo o documento, esvazia a efetividade da diretoria e pode gerar prejuízos à administração pública.
Outro ponto crítico envolve a remuneração. O mesmo servidor recebe cerca de R$ 3,1 mil em seu cargo efetivo, mas passa a receber mais de R$ 16,6 mil ao assumir o cargo comissionado na COHAB — ambos pagos pelo município.

Suspeita de nepotismo dentro da diretoria
A recomendação também aponta possível prática de nepotismo na nomeação da diretora administrativo-financeira, Cirlene da Cruz.
Segundo o documento, ela mantém união estável com um secretário municipal, o que é vedado pela Lei das Estatais. A legislação proíbe expressamente a nomeação de parentes ou cônjuges de autoridades para cargos de direção em empresas públicas.
Além da relação familiar, o Ministério Público afirma que também não há comprovação de experiência técnica suficiente para o exercício da função.
Conflito de interesses atinge presidência
O diretor-presidente da COHAB, Jaime Carlos Brum, também é alvo de questionamentos.
De acordo com a investigação, ele figura como sócio-administrador de uma empresa privada ativa, o que pode configurar conflito de interesses com o cargo público que ocupa.
A promotoria ressalta que essa situação viola princípios básicos da administração pública, como moralidade e dedicação exclusiva ao interesse público.

Estrutura fragilizada e possível irregularidade administrativa
Outro ponto destacado no documento é a ausência de equipe técnica na diretoria responsável, o que fere princípios constitucionais e compromete o funcionamento adequado da companhia.
Além disso, o Ministério Público aponta falhas na transparência da COHAB e questiona a falta de estudos técnicos sobre uma possível extinção da companhia, tema que teria sido discutido internamente pela gestão municipal.
Dinheiro público e estrutura em jogo
A COHAB possui orçamento superior a R$ 5,9 milhões, conforme a Lei de Diretrizes Orçamentárias, além de uma folha anual estimada em R$ 3,6 milhões.
Mesmo com esses valores, não há comprovação de planejamento adequado para mudanças estruturais, como eventual extinção do órgão.
Ministério Público exige exonerações imediatas
Diante dos indícios, o Ministério Público recomendou ao prefeito Luiz Gustavo Botogoski:
- a exoneração imediata dos três diretores da COHAB
- a suspensão de novas nomeações irregulares
- a regularização técnica da estrutura da companhia
- a paralisação de qualquer proposta de extinção sem estudos técnicos
A prefeitura tem prazo de 48 horas para se manifestar.

Risco de ação judicial e improbidade administrativa
O documento é claro ao afirmar que o descumprimento das recomendações pode resultar em medidas judiciais, incluindo ações por improbidade administrativa contra os responsáveis pelas nomeações.

EDITORIAL — QUANDO A POLÍTICA ATROPELA A TÉCNICA: O CASO QUE PODE ABALAR A CONFIANÇA EM ARAUCÁRIA
O que deveria ser uma estrutura voltada ao interesse público transforma-se, mais uma vez, em alvo de suspeitas que colocam em xeque não apenas nomes, mas todo um modelo de gestão. As revelações envolvendo a Companhia Municipal de Habitação de Araucária (COHAB) não são apenas mais um episódio administrativo: são um sinal de alerta grave sobre os rumos da máquina pública.
A recomendação do Ministério Público do Estado do Paraná não deixa margem para interpretações ingênuas. Quando há indícios de nomeações sem qualificação técnica, possíveis vínculos pessoais em cargos estratégicos e suspeitas de conflito de interesses, o problema deixa de ser pontual e passa a ser estrutural. Não se trata apenas de erros isolados, mas de um possível padrão de decisões que desconsideram critérios legais e técnicos.
A Lei das Estatais não foi criada por acaso. Ela surgiu como resposta a anos de distorções, justamente para impedir que empresas públicas fossem utilizadas como extensão de interesses políticos ou pessoais. Ignorar essa legislação é mais do que uma falha administrativa — é um risco direto à integridade da gestão pública.
O ponto mais sensível dessa crise está na quebra de confiança. Quando cargos técnicos são ocupados sem comprovação de capacidade, a consequência imediata é a fragilização da própria política pública. No caso da habitação, isso significa colocar em risco projetos, recursos e, principalmente, o atendimento à população que depende desses serviços.
A suspeita de nepotismo, se confirmada, agrava ainda mais o cenário. A proximidade entre agentes públicos em cargos de decisão levanta dúvidas legítimas sobre imparcialidade e transparência. A administração pública exige distanciamento entre relações pessoais e decisões institucionais — qualquer desvio disso compromete a credibilidade do sistema.

Já o possível conflito de interesses na presidência da companhia acende outro sinal vermelho. A gestão pública exige dedicação exclusiva ao interesse coletivo. A manutenção de vínculos com atividades privadas, quando incompatíveis com o cargo, coloca em risco decisões que deveriam ser tomadas com absoluta isenção.
Há ainda um elemento que não pode ser ignorado: o dinheiro público. Com milhões em orçamento e uma estrutura que deveria operar com planejamento e eficiência, a ausência de critérios técnicos não é apenas uma irregularidade — é um potencial desperdício de recursos que pertencem à população.
Diante desse cenário, a recomendação do Ministério Público por exonerações imediatas não soa como exagero, mas como medida necessária para conter danos maiores. A resposta da administração municipal será determinante para definir se haverá correção de rumo ou aprofundamento da crise.
Este não é apenas um caso sobre cargos ou nomes. É um teste de responsabilidade institucional. A sociedade precisa saber se a gestão pública está sendo conduzida com base em competência ou conveniência.
Quando a política atropela a técnica, o resultado quase sempre é o mesmo: prejuízo para a população, desgaste das instituições e um ciclo de desconfiança que se retroalimenta.
A pergunta que permanece, agora com ainda mais peso, é inevitável: até onde vai essa lógica — e quem, de fato, será responsabilizado?








Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.