
Investigação da Câmara e processo na Justiça revelam problemas administrativos, suspeitas de improbidade e dívida milionária
A tentativa de retomada do programa Armazém da Família em Araucária enfrenta obstáculos que vão muito além da vontade política ou da estrutura logística. Documentos oficiais da Câmara Municipal e decisões judiciais revelam um cenário complexo marcado por irregularidades administrativas, suspeitas de improbidade, assaltos com prejuízos financeiros e uma disputa judicial milionária entre os municípios de Araucária e Curitiba.
O programa, que oferecia alimentos e produtos essenciais com preços até 30% mais baratos, deixou de operar na cidade há cerca de 14 anos. Desde então, investigações e processos judiciais passaram a fazer parte da história que ainda impede sua retomada.
Comissão de Inquérito revelou irregularidades graves
Uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) foi criada pela Câmara Municipal de Araucária para investigar possíveis irregularidades na gestão do programa entre 2009 e 2012.
O trabalho durou aproximadamente 10 meses e contou com:
- 26 reuniões oficiais
- 25 depoimentos
- 76 memorandos
- 49 ofícios
- diligências externas em Curitiba
O relatório final apontou diversas inconsistências administrativas e problemas de gestão no período investigado.
Entre os principais pontos levantados estão:
Falta de controle administrativo
Durante a investigação, vereadores relataram dificuldades para localizar documentos e registros relacionados ao funcionamento do programa.
Foram encontrados:
- documentos sem assinatura
- falhas no controle documental
- ausência de registros administrativos importantes
Essas falhas comprometeram a transparência e dificultaram a apuração completa das responsabilidades.
Suspeita de improbidade administrativa
Outro ponto grave citado pela comissão foi a possível ocorrência de improbidade administrativa, situação que deverá ser analisada pelos órgãos de controle.
Entre os indícios apontados estão:
- renovação de contrato mesmo com existência de dívida
- falhas na fiscalização administrativa
- gestão considerada irregular do programa
Os elementos levantados foram encaminhados para análise do Ministério Público.
Transporte irregular de dinheiro público
A CEI também identificou irregularidades na forma como recursos financeiros do programa eram transportados.
Segundo depoimentos colhidos pela comissão, valores em dinheiro eram transportados sem protocolos adequados de segurança, o que levanta dúvidas sobre a gestão financeira da época.
Assaltos geraram prejuízos ao município
Outro problema enfrentado durante o funcionamento do Armazém da Família foi a ocorrência de assaltos envolvendo valores do programa.
Segundo os depoimentos analisados pela comissão:
- ocorreram vários assaltos relacionados à movimentação de dinheiro
- o município precisou arcar com parte dos prejuízos
- aproximadamente R$ 99 mil foram liberados para ressarcimento desses episódios
Mesmo assim, a comissão afirmou que não foram localizados documentos suficientes que comprovem todos os pagamentos realizados.
Denúncias de coação e falso testemunho
Durante as investigações da Câmara também surgiram denúncias de ameaças e tentativa de coação contra membros da comissão.
O caso resultou no registro de boletim de ocorrência por ameaça e coação no curso do processo, posteriormente encaminhado às autoridades competentes para investigação.
Além disso, surgiram relatos de possível falso testemunho durante depoimentos prestados à comissão.
Dívida milionária é contestada
Outro ponto central da crise envolvendo o Armazém da Família é a disputa sobre uma dívida entre Araucária e Curitiba.
Curitiba sustenta que o município de Araucária possui um débito relacionado à operação do programa.
Porém, a Comissão de Inquérito apontou inconsistências nessa cobrança.
Entre os questionamentos levantados estão:
- ausência de comprovação documental da dívida
- cobrança realizada anos após o encerramento do programa
- renovação de contrato mesmo diante da suposta existência de débito
Segundo vereadores que participaram da investigação, não foi possível comprovar documentalmente que Araucária realmente deve o valor cobrado.
Processo judicial segue em andamento

A disputa acabou chegando ao Poder Judiciário.
O caso tramita na 3ª Vara da Fazenda Pública de Curitiba, sob o processo nº:
0007079-12.2014.8.16.0004
Em decisão recente, o juiz determinou:
- inclusão do Ministério Público como fiscal da lei
- realização de auditoria contábil
- suspensão do processo por 60 dias para elaboração de parecer técnico.
A auditoria deverá analisar:
- a existência da dívida
- o valor real do débito
- eventuais responsabilidades administrativas
Somente após essa análise será possível definir se haverá acordo entre os municípios ou continuidade da disputa judicial.
Falta de documentos dificulta solução
Outro fator apontado pelas autoridades é a dificuldade de reconstruir os fatos ocorridos mais de uma década atrás.
A própria investigação reconhece que houve:
- perda de documentos
- ausência de registros administrativos
- dificuldades causadas pelo tempo decorrido
Esses fatores atrasam qualquer solução definitiva para o caso.
Programa é considerado essencial para combater a fome
Apesar das irregularidades investigadas, especialistas e representantes da sociedade civil afirmam que o Armazém da Família era fundamental para a segurança alimentar da população.
O programa oferecia cerca de 280 produtos, incluindo:
- alimentos básicos
- produtos de higiene
- itens de limpeza doméstica
Os preços eram até 30% menores que no comércio tradicional, beneficiando milhares de famílias de baixa renda.
Durante a audiência da comissão, representantes da sociedade civil relataram que:
- igrejas e entidades enfrentam dificuldades para atender pessoas com fome
- a ausência do programa aumentou a demanda por ajuda alimentar.
Retomada depende de solução judicial

Atualmente, a retomada do Armazém da Família em Araucária depende de três fatores principais:
1️⃣ conclusão da auditoria contábil determinada pela Justiça
2️⃣ definição da disputa judicial entre Araucária e Curitiba
3️⃣ negociação política entre as administrações municipais
Enquanto essas questões não forem resolvidas, o retorno do programa segue sendo apenas uma possibilidade em estudo.
Créditos da reportagem:
Marcello Sampaio
Jornalista Investigativo
Tribuna da Cidade / VPX Comunicação







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