O acordo de R$ 31,7 milhões, os bastidores da Comissão Processante e o julgamento que pode encerrar a era Gustavo Botogoski — e abrir espaço para uma nova liderança
Por Marcello Sampaio
Colaboração: Kdu Silva
Especial Tribuna da Cidade

Toda cidade acredita na própria estabilidade até que um número a coloque em suspensão.
Em Araucária, o número foi R$ 31.712.121,84.
O valor do acordo firmado entre o Município e a empresa Viação Tindiquera Ltda. não apenas chamou atenção pelo montante. Ele se tornou divisor político.
O instrumento jurídico — classificado como negócio jurídico processual — buscava encerrar um passivo judicial relevante. Tecnicamente, era uma alternativa legal prevista no Código de Processo Civil.
Politicamente, tornou-se o epicentro de uma tempestade.
Quando a homologação judicial foi suspensa para análise mais profunda, o debate ganhou outra dimensão. O que era cálculo contábil virou disputa institucional.
E a partir daí, o nome do prefeito Gustavo Botogoski passou a figurar no centro de uma crise que pode marcar definitivamente sua trajetória política.
O ACORDO SOB A LUPA
A controvérsia envolve três pontos centrais:
- A vantajosidade econômica real do acordo
- O respeito ao regime constitucional de pagamentos públicos
- A motivação técnica detalhada do ato administrativo
A defesa sustenta que a negociação evitava risco financeiro maior no futuro.
Críticos questionam se houve demonstração robusta de economia estrutural.
Na política, a percepção pública pesa tanto quanto a fundamentação técnica.
E a percepção, neste momento, é de que o valor exige respostas convincentes.

O INSTRUMENTO QUE PODE ENCERRAR UM MANDATO
A denúncia apresentada à Câmara foi recebida com base no Decreto-Lei 201/1967.
O rito prevê:
- Formação de Comissão Processante
- Instrução e defesa
- Relatório conclusivo
- Votação nominal
São necessários sete votos para cassação.
É um julgamento político com estrutura jurídica.
Não exige condenação criminal. Exige convencimento qualificado de que houve infração político-administrativa.
E é nesse ponto que o nome de Gustavo Botogoski se encontra sob o maior teste de sua gestão.

O prefeito construiu sua trajetória com discurso de modernização administrativa e estabilidade fiscal.
Agora enfrenta o momento mais delicado de seu mandato.
Processos dessa magnitude não são apenas jurídicos. São simbólicos.
Se for absolvido, terá de reconstruir autoridade política.
Se for cassado, seu nome ficará vinculado a um dos episódios institucionais mais marcantes da história recente do município.
A pergunta que ecoa nos bastidores não é apenas jurídica.
É política:
Haverá força suficiente para sustentar sua permanência?
A CÂMARA EM ALERTA
O clima no Legislativo é de tensão controlada.
Vereadores calculam impactos.
A votação será nominal.
Cada nome chamado.
Cada voto declarado.
Não haverá neutralidade histórica.
O episódio entrará para os registros institucionais do município.

O IMPACTO ECONÔMICO
Araucária possui peso industrial relevante no Paraná.
Empresas monitoram estabilidade política.
Investidores observam.
Crises institucionais prolongadas geram cautela.
E cautela influencia decisões.
Ainda não há ruptura econômica.
Mas há observação atenta.

Se houver cassação, a sucessão será imediata.
A vice-prefeita Tatiana Assuiti assumirá automaticamente o Executivo.
E é nesse ponto que o cenário muda.
Tatiana construiu reputação administrativa marcada por:
✔ Organização técnica
✔ Perfil equilibrado
✔ Capacidade de diálogo institucional
✔ Postura firme sem exposição desnecessária
Interlocutores no Legislativo e no setor produtivo descrevem seu estilo como “gestão silenciosa e eficiente”.
Não construiu carreira baseada em embates públicos.

Construiu reputação baseada em método.
Caso assuma, encontrará cenário desafiador — mas também oportunidade histórica.
Ela poderá:
- Reorganizar a comunicação institucional
- Reaproximar Executivo e Legislativo
- Reforçar transparência administrativa
- Reestabelecer confiança política
Sua eventual ascensão representaria não apenas transição administrativa.
Representaria renovação de estilo.
A FORÇA DO SIMBOLISMO
Momentos de ruptura política frequentemente abrem espaço para lideranças com perfil conciliador.
Tatiana Assuiti carrega imagem de estabilidade.
E estabilidade é ativo raro em períodos de turbulência.
Sua eventual condução do Executivo poderá simbolizar reorganização institucional e maturidade administrativa.
Mas simbolismo precisa se converter em resultados.
E resultados exigem liderança.

ANÁLISE JURÍDICA
Para que haja cassação, é necessário demonstrar:
- Violação objetiva de norma
- Conduta incompatível com dever funcional
- Relevância administrativa do ato
A ausência de dolo não impede julgamento político, mas influencia sua robustez técnica.
Além disso, eventual decisão poderá ser judicializada.
Isso eleva a responsabilidade da Comissão Processante.
A decisão precisa ser fundamentada.

O JULGAMENTO DO PODER
Sete à10 votos.
O número circula nos bastidores como senha decisiva.
Mas o verdadeiro impacto começa após o resultado.
Se Gustavo Botogoski permanecer, governará sob vigilância ampliada.
Se houver cassação, Tatiana Assuiti poderá iniciar novo ciclo político.
Em ambos os cenários, Araucária não retornará ao ponto inicial.
A cidade atravessa momento de redefinição.
O poder está sob julgamento.
E a história municipal está sendo escrita diante dos olhos da população.
EDITORIAL — O MOMENTO DA RESPONSABILIDADE

Araucária vive um dos episódios institucionais mais relevantes de sua história recente.
Independentemente de preferências políticas, o momento exige maturidade, fundamentação técnica e compromisso com a estabilidade administrativa.
Crises revelam lideranças.
Revelam também a capacidade das instituições de agir com equilíbrio.
A decisão da Câmara não deve ser guiada por impulso, mas por responsabilidade histórica.
Seja qual for o desfecho, o compromisso maior deve ser com a cidade.
Com sua economia.
Com sua população.
Com seu futuro.
Créditos da Matéria

Reportagem Especial:
Tribuna da Cidade

