Por Marcello Sampaio
Araucária atravessa um dos períodos mais delicados de sua história política recente. Em meio a denúncias de grande impacto financeiro envolvendo o prefeito Luiz Gustavo Botogoski (PL), o município passa a conviver com uma realidade institucional atípica: enquanto o chefe do Executivo enfrenta questionamentos jurídicos severos, quem exerce, na prática, a função de prefeita é Tatiana Assuiti, vice-prefeita que assumiu interinamente o comando da cidade até o dia 26 de fevereiro — prazo previsto para o retorno do titular, caso não haja novos desdobramentos.
O cenário, no entanto, é fluido. E politicamente carregado.

Uma trajetória construída passo a passo
Antes de ocupar o centro do tabuleiro político municipal, Tatiana Assuiti construiu sua trajetória de forma gradual. Eleita vereadora, destacou-se pela capacidade de diálogo, articulação política e leitura social do território. Sua atuação a projetou para além do Legislativo, tornando seu nome recorrente em articulações políticas muito antes da composição da atual chapa majoritária.
Não por acaso, Tatiana já havia sido convidada em outros momentos para compor chapas como vice-prefeita, sinal claro de reconhecimento transversal de sua força eleitoral e política.
Vice-prefeita eleita, passa agora a exercer — ainda que temporariamente — o cargo máximo do Executivo municipal em um momento de extrema sensibilidade institucional.

O afastamento temporário do prefeito ocorre em meio a uma denúncia que abalou profundamente os bastidores do poder em Araucária. O caso envolve a assunção de uma suposta dívida de R$ 31,7 milhões junto à empresa Viação Tindiquera, em um acordo firmado sem decisão judicial definitiva, sem autorização da Câmara Municipal e fora do orçamento aprovado.
O novo pedido protocolado é particularmente sensível: trata exclusivamente da cassação do mandato do prefeito, e não da chapa como um todo — diferentemente de outros processos anteriores. Isso muda o jogo político.
Caso avance, o processo pode abrir caminho para que Tatiana Assuiti deixe de ser prefeita em exercício e se torne prefeita de fato, conforme prevê a legislação.

Apesar de ocupar interinamente o cargo, Tatiana tem sido, segundo interlocutores políticos, mantida à margem de decisões estratégicas mais amplas. Ainda assim, é ela quem responde institucionalmente pela Prefeitura no cotidiano, administra a máquina pública e sustenta a estabilidade administrativa em um momento de incerteza.
Nos bastidores, a pergunta já circula com insistência — não como afirmação, mas como reflexão política legítima:
Quem é, hoje, a prefeita de fato de Araucária?
A questão ganha força à medida que o processo contra o prefeito avança e que a vice-prefeita demonstra capacidade de condução, serenidade institucional e resistência política em um ambiente predominantemente masculino e historicamente hostil a lideranças femininas autônomas.

Muito além da política
Antes de tudo, Tatiana Assuiti é mãe, empresária, filha e professora. Sua trajetória pessoal se confunde com a vivência cotidiana da cidade, o que explica parte de sua conexão com o eleitorado.
Essa dimensão humana, frequentemente ignorada nos cálculos frios da política, tem peso real. Lideranças que emergem desse lugar tendem a carregar não apenas capital político, mas legitimidade social — um ativo cada vez mais raro.
Votos, liderança e o jogo de bastidores
Há quem sustente, nos bastidores, que o capital eleitoral da chapa sempre esteve fortemente associado ao nome de Tatiana. A reflexão que surge — e aqui permanece no campo da análise, não da afirmação — é se figuras masculinas ao redor não estariam, ao longo do tempo, tentando surfar politicamente sobre uma liderança que possui votos, identidade e força próprias.
Essa não é uma acusação, mas uma leitura recorrente em cenários onde mulheres líderes enfrentam estruturas políticas tradicionais.

Diante do desgaste crescente, analistas políticos avaliam que uma renúncia voluntária do prefeito, caso o processo avance de forma irreversível, poderia representar não apenas um gesto de responsabilidade política, mas também uma tentativa de preservar a estabilidade administrativa do município.
Essa decisão, se tomada, colocaria definitivamente Tatiana Assuiti no comando de Araucária, abrindo um novo capítulo político marcado por um símbolo poderoso: a ascensão de uma mulher ao cargo máximo do Executivo municipal em meio a uma crise histórica.

Reconhecimento antes de qualquer desfecho
Independentemente do desfecho jurídico e político, um ponto já se impõe ao debate público: Tatiana Assuiti merece respeito institucional e reconhecimento político.
Não por circunstância, não por acaso, mas por trajetória, votos, preparo e resiliência.
Araucária vive um momento decisivo. E, neste cenário, o nome de Tatiana Assuiti deixou de ser apenas coadjuvante de uma chapa para se tornar elemento central da discussão sobre liderança, legitimidade e futuro político da cidade.
O tempo — e as instituições — dirão qual será o próximo passo. Mas a história já registra: há mulheres que não apenas ocupam cargos, mas sustentam governos.

Crises políticas costumam revelar mais do que fragilidades administrativas. Elas expõem lideranças, testam instituições e colocam à prova a maturidade democrática de uma cidade. Araucária vive exatamente esse momento.
A denúncia envolvendo a assunção de uma dívida milionária sem decisão judicial definitiva, sem autorização legislativa e fora do orçamento aprovado não é um episódio trivial. Trata-se de um caso que desafia princípios básicos da legalidade administrativa, da responsabilidade fiscal e do respeito às instituições. A suspensão judicial do acordo apenas reforça a gravidade do quadro e impõe ao Legislativo o dever inescapável de investigar com profundidade, serenidade e independência.
Mas toda crise também reposiciona atores políticos.
Enquanto o prefeito eleito enfrenta um cenário de desgaste jurídico e político, a vice-prefeita Tatiana Assuiti assume interinamente o comando do município. Não por escolha estratégica, mas por força da lei. Ainda assim, sua presença à frente do Executivo reacende um debate que vai além do processo em curso: quem sustenta, de fato, a governabilidade quando o poder formal entra em colapso?

Tatiana não surge agora no cenário político. Sua trajetória como vereadora, sua força eleitoral e sua recorrente lembrança para compor chapas majoritárias demonstram que sua liderança não é circunstancial. É construída. E reconhecida — ainda que, muitas vezes, silenciosamente.
O que se observa, porém, é um padrão conhecido na política brasileira: mulheres que chegam ao centro do poder frequentemente enfrentam tentativas de esvaziamento simbólico, de isolamento institucional ou de redução de sua autoridade, mesmo quando exercem funções legitimamente atribuídas.
A pergunta que ecoa nos bastidores — e que precisa ser feita em voz alta, sem medo — não é acusatória, mas reflexiva: por que lideranças femininas, mesmo quando detêm votos, preparo e respaldo legal, ainda precisam provar mais do que os homens para serem reconhecidas?
Araucária tem diante de si uma escolha histórica. Não apenas sobre o futuro de um mandato, mas sobre o tipo de política que deseja fortalecer. Arquivar denúncias graves sem investigação seria um desserviço à democracia. Ignorar lideranças que demonstram capacidade, equilíbrio e compromisso com a cidade também.

Independentemente do desfecho jurídico, Tatiana Assuiti já ocupa um lugar que não pode ser apagado: o de liderança testada em meio à crise. Se o prefeito retornar, caberá a ele reconstruir pontes e respeitar o peso político de sua vice. Se não retornar, a cidade precisará reconhecer que a condução do Executivo estará nas mãos de quem, até aqui, demonstrou disposição para enfrentar o caos com serenidade.
Crises passam. A história, não.
E Araucária será lembrada não apenas pelo escândalo que enfrentou, mas pelas escolhas que fez quando o poder foi colocado à prova.


