EDITORIAL - MARCELLO SAMPAIO DESTAQUE ELEIÇÕES 2026 PARANÁ POLITICA EM PAUTA

DC 27 no Paraná: a guerra silenciosa pelo controle de uma legenda que pode decidir 2026

Bastidores, personagens, dinheiro eleitoral e a disputa que transformou um partido discreto em território político estratégico

Por Marcello Sampaio


A eleição não começa na campanha

Existe um erro comum do eleitor brasileiro: acreditar que a eleição começa quando aparecem os santinhos na rua.

Na verdade, quando a campanha começa oficialmente, boa parte do jogo já foi decidida.

A política real acontece antes — dentro dos partidos.

É ali que se define quem pode ser candidato, quem terá estrutura, quem receberá recursos e quem terá apoio. Sem legenda, não existe candidatura. E quando uma legenda passa a ter valor eleitoral, automaticamente passa a ter disputa interna.

O caso da Democracia Cristã (DC 27) no Paraná mostra exatamente isso.

Durante anos, o DC foi apenas uma sigla de sobrevivência eleitoral. Funcionava como abrigo político, legenda de composição e espaço para candidaturas proporcionais. Tinha pouca presença pública e pouca influência estadual.

Até alguém perceber seu potencial estratégico.

Entre 2022 e 2026, o partido deixou de ser coadjuvante e virou campo de batalha político.

Não por ideologia.

Por estrutura.


Por que o partido passou a ser disputado

Para o eleitor comum, um partido parece apenas um número na urna eletrônica.

Para quem vive a política, um partido significa quatro coisas extremamente valiosas:

• legenda eleitoral
• fundo partidário
• fundo eleitoral
• poder de lançar candidaturas

Quem controla isso passa a ter poder político mesmo sem mandato.

Desde o fim do financiamento empresarial de campanha, em 2017, a importância das siglas aumentou. O financiamento passou a ser majoritariamente público, e a distribuição interna dos recursos virou o centro das disputas partidárias.

Controlar o diretório estadual significa participar da decisão de quem terá estrutura para disputar eleição.

Ou seja: não é apenas política.
É viabilidade eleitoral.


O surgimento de uma nova liderança

Nos bastidores da política paranaense ganhou espaço a figura de Jhonny Correia.

Ele passou a atuar como articulador estadual, promovendo filiações, visitas a municípios e contato com lideranças locais. O projeto, segundo interlocutores políticos, era claro: fortalecer o partido e transformá-lo em plataforma eleitoral futura.

O discurso aproximou-se de setores conservadores e houve tentativa de vinculação a grupos da direita nacional. Em cidades do Norte Pioneiro, especialmente em Cornélio Procópio, circularam declarações de apoio político relevante em nível nacional.

O apoio, porém, nunca foi formalizado publicamente.

E na política, apoio que não se confirma gera tensão.


O rompimento interno

Antes da crise, o DC possuía uma estrutura organizada por lideranças regionais. Entre elas estava César Bassani, responsável por montar diretórios municipais e buscar nomes competitivos.

A construção era lenta e típica de partido pequeno:
primeiro vereadores, depois prefeitos, depois deputados.

O ponto de ruptura ocorreu após articulação direta junto à executiva nacional em São Paulo, que resultou na mudança do comando estadual.

Nos bastidores, esse tipo de movimento costuma receber um nome informal: intervenção branca — quando a direção muda sem processo interno aberto.

O resultado foi imediato:
o partido passou a viver um racha.

E o conflito, antes interno, tornou-se público.

Na política, o maior rompimento não acontece quando adversários brigam.
Acontece quando aliados deixam de confiar.


O teste das urnas

Veio então a eleição municipal.

A candidatura à prefeitura de Cornélio Procópio, apoiada pelo grupo dirigente, teve forte presença digital e discurso competitivo. Nas urnas, porém, a votação ficou próxima de dois mil votos.

No mesmo pleito, o prefeito eleito foi Raphael Sampaio (PP).

Na política brasileira existe uma regra não escrita: liderança partidária depende de voto real. Resultados abaixo do esperado costumam enfraquecer autoridade interna.


2022: o problema financeiro e político

A eleição de 2022 ampliou a crise.

O partido lançou candidaturas proporcionais e buscou nomes competitivos, entre eles o então deputado estadual Coronel Lee. A expectativa era que um candidato forte puxasse votos e ajudasse a legenda a crescer.

Após o pleito, surgiram questionamentos internos sobre estratégia eleitoral e condução partidária.

Dados públicos do sistema DivulgaCandContas registravam pendências financeiras daquele período. Politicamente, isso pesou muito.

Não significa automaticamente irregularidade criminal.

Mas dentro de partido político, três coisas afastam candidatos:

• falta de organização
• falta de estrutura
• falta de confiança

E confiança é capital eleitoral.


A virada: Ricardo Gomyde

A mudança decisiva ocorreu quando o ex-deputado federal Ricardo Gomyde assumiu o comando estadual.

Não foi apenas troca de presidente.

Foi troca de projeto.

O partido passou a ser visto como peça de negociação para 2026. A estratégia deixou de ser apenas organizar diretórios e passou a ser participar do tabuleiro estadual.

A partir daí, o DC deixou de ser um partido em formação e passou a ser um partido em disputa.


A guerra de narrativa

A crise interna gerou um fenômeno moderno: a disputa digital.

Nas redes sociais surgiu o apelido “Democracia Comunista”. O nome não é oficial nem houve mudança ideológica formal. Trata-se de estratégia de comunicação política, comum na era digital: criar rótulos antes da campanha.

O objetivo não é explicar ideologia.
É criar percepção.

No Tribunal Superior Eleitoral, o registro permanece inalterado: Democracia Cristã — 27.

A guerra é simbólica.


O que realmente está em jogo

O Paraná possui:

• 54 cadeiras na Assembleia Legislativa
• 31 vagas na Câmara dos Deputados

Para eleger deputados, partidos precisam atingir o quociente eleitoral. Um candidato forte pode puxar outros — o chamado efeito puxador.

Por isso, a disputa interna não é apenas sobre comando.

É sobre quem decidirá:

quem será candidato
quem receberá recursos
quem terá estrutura

Em eleições equilibradas, partidos médios podem decidir governos.

É por isso que o DC passou a ser disputado.

Não pelo tamanho atual —
mas pelo tamanho possível em 2026.


O cenário de 2026

Hoje existem quatro possibilidades para o partido:

1 — candidatura própria
2 — composição em chapa majoritária
3 — foco em eleger deputados
4 — novo racha interno

Historicamente, partidos médios sobrevivem melhor quando escolhem a terceira opção: bancada.

Deputados significam influência, recursos futuros e sobrevivência partidária.


Partido político é instituição.

Não é propriedade pessoal, nem projeto individual.

Siglas sobrevivem a prefeitos, deputados e governadores. Lideranças passam. A estrutura permanece.

O caso do DC no Paraná mostra uma regra antiga da política brasileira: quando a organização interna falha, alguém ocupa o espaço.

Não é questão de direita ou esquerda.
É questão de poder organizacional.

A eleição que o eleitor vê é apenas a última fase. Antes dela existem filiações, acordos, rupturas, intervenções e reposicionamentos.

A internet cria memes.
A política cria alianças.
Mas quem decide o destino de um partido continua sendo a urna.

2026 ainda não começou oficialmente.

Mas, dentro dos partidos, já começou há muito tempo.

E toda eleição grande começa sempre do mesmo jeito:

primeiro se conquista a legenda.
depois se disputa o voto.

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