ARAUCÁRIA EM JULGAMENTO
O acordo de R$ 31 milhões, a Comissão Processante e os 7 votos que podem mudar tudo
Entre cifras milionárias, decisão judicial e tensão na Câmara, cidade vive uma das maiores crises políticas de sua história recente
Por Marcello Sampaio
O ACORDO QUE PAROU NA JUSTIÇA
A crise tem número.
Tem valor.
E tem endereço institucional.
R$ 31.712.121,84.
Esse é o montante do acordo firmado entre o Município de Araucária e a empresa Viação Tindiquera Ltda. Trata-se de um “negócio jurídico processual” que previa:
- Pagamento parcelado
- Atualização pelo IPCA-E
- Honorários advocatícios de 5% para ambas as partes
À primeira vista, uma tentativa de encerrar um litígio.
Na prática, o estopim de uma tempestade política.
A Justiça suspendeu a homologação do acordo. E a decisão foi objetiva ao apontar fragilidades:
- Ausência de sentença transitada em julgado
- Falta de demonstração clara de vantagem econômica ao Município
- Ausência de comprovação específica de impacto orçamentário
- Possível afronta ao regime constitucional de precatórios (artigo 100 da Constituição Federal)
Não foi uma observação lateral.
Foi um freio institucional.
A partir dali, o debate deixou de ser exclusivamente técnico e tornou-se político. O prefeito Luiz Gustavo Botogoski passou a ser alvo de pedido formal de abertura de Comissão Processante por supostas infrações político-administrativas, com fundamento no Decreto-Lei 201/1967.
A pergunta que ecoa nos corredores do poder é direta:
Foi uma tentativa legítima de solução jurídica
ou um erro administrativo de grandes proporções?
OS 7 VOTOS QUE DEFINEM UM MANDATO
A matemática da Câmara é simples.
Treze vereadores.
Sete votos.
Não é maioria confortável.
É número exato.
Sete decisões individuais que podem alterar o destino político do Executivo municipal.
A Comissão Processante é composta por:
- Ben Hur
- Paulinho Cabeleireiro
- Nilso Vaz Torres
A condução institucional está sob responsabilidade do presidente da Casa, Eduardo Castilho. O vereador Fábio Pavoni tem defendido que o processo avance com rigor.
Nos bastidores, o ambiente é de tensão permanente.
- Áudios circulam.
- Conversas são comentadas.
- Pressões são mencionadas em off.
Nada disso constitui prova formal.
Mas tudo compõe o cenário.
Quando sete votos definem um mandato, cada parlamentar deixa de ser coadjuvante.
Torna-se protagonista.
A Comissão será instrumento de apuração técnica
ou arena de disputa estratégica?
A pergunta divide plenário, redes sociais e corredores do poder.
ENTRE A LEI E A CIDADE REAL
Enquanto o embate institucional avança, a cidade segue.
A saúde enfrenta demanda crescente.
A educação convive com desafios estruturais.
A manutenção urbana exige recursos.
Terceirizados relatam dificuldades.
O valor em discussão — R$ 31 milhões — não é abstrato.
É orçamento.
É política pública.
É impacto direto na gestão municipal.
A decisão judicial deixou um recado claro:
Interesse público exige
motivação qualificada,
segurança jurídica
e responsabilidade fiscal.
Se houve precipitação, a cidade precisa saber.
Se houve erro técnico, precisa ser corrigido.
Se houve irregularidade, precisa ser apurada.
Mas há um risco paralelo:
Transformar um processo jurídico em guerra política.
A cassação de um prefeito não é ato trivial.
É ruptura institucional.
É redefinição de poder.
É impacto na estabilidade política e econômica do município.
O julgamento de Luiz Gustavo Botogoski será, na prática, um teste sobre:
- Transparência
- Responsabilidade fiscal
- Independência da Câmara
- Maturidade democrática
ENTRE R$ 31 MILHÕES, 7 VOTOS E UMA CIDADE EM SUSPENSE
Araucária não vive apenas uma crise política.
Vive uma crise de confiança.
A denúncia contra o prefeito está formalizada.
A decisão judicial foi técnica.
A reação política é estrutural.
Cargo público não é blindagem.
Mandato não é salvo-conduto.
Vereador não é espectador.
Quando um acordo milionário é suspenso pela Justiça por ausência de fundamentação robusta, o mínimo que se espera é apuração rigorosa — sem espetáculo, mas também sem complacência.
Se houver compra de voto parlamentar, é crime.
Se houver pressão institucional, é abuso.
Se houver desvio de finalidade, é irregularidade grave.
Mas acusações exigem prova.
E defesa exige espaço.
O que Araucária não pode aceitar é:
Silêncio conveniente.
Blindagem automática.
Cálculo político acima do interesse público.
A Comissão Processante será lembrada como marco de responsabilidade institucional
ou como símbolo de conveniência política?
Sete votos podem decidir um mandato.
Mas quem decide o rumo da cidade
é a consciência de cada parlamentar.
Araucária não é cifra.
Não é acordo.
Não é voto negociável.
É casa de milhares de famílias que esperam responsabilidade.
Sem gritos.
Sem teatro.
Sem guerra de versões.
Com lei.
Com transparência.
Com coragem.
A cidade está olhando.

