15 de fevereiro de 2026 ESPECIAL O PREFEITO E O CARGO EM XEQUE

ESPECIAL O PREFEITO E O CARGO EM XEQUE

ARAUCÁRIA EM JULGAMENTO

O acordo de R$ 31 milhões, a Comissão Processante e os 7 votos que podem mudar tudo

Entre cifras milionárias, decisão judicial e tensão na Câmara, cidade vive uma das maiores crises políticas de sua história recente

Por Marcello Sampaio


O ACORDO QUE PAROU NA JUSTIÇA

A crise tem número.
Tem valor.
E tem endereço institucional.

R$ 31.712.121,84.

Esse é o montante do acordo firmado entre o Município de Araucária e a empresa Viação Tindiquera Ltda. Trata-se de um “negócio jurídico processual” que previa:

  • Pagamento parcelado
  • Atualização pelo IPCA-E
  • Honorários advocatícios de 5% para ambas as partes

À primeira vista, uma tentativa de encerrar um litígio.

Na prática, o estopim de uma tempestade política.

A Justiça suspendeu a homologação do acordo. E a decisão foi objetiva ao apontar fragilidades:

  • Ausência de sentença transitada em julgado
  • Falta de demonstração clara de vantagem econômica ao Município
  • Ausência de comprovação específica de impacto orçamentário
  • Possível afronta ao regime constitucional de precatórios (artigo 100 da Constituição Federal)

Não foi uma observação lateral.

Foi um freio institucional.

A partir dali, o debate deixou de ser exclusivamente técnico e tornou-se político. O prefeito Luiz Gustavo Botogoski passou a ser alvo de pedido formal de abertura de Comissão Processante por supostas infrações político-administrativas, com fundamento no Decreto-Lei 201/1967.

A pergunta que ecoa nos corredores do poder é direta:

Foi uma tentativa legítima de solução jurídica
ou um erro administrativo de grandes proporções?


OS 7 VOTOS QUE DEFINEM UM MANDATO

A matemática da Câmara é simples.

Treze vereadores.
Sete votos.

Não é maioria confortável.
É número exato.

Sete decisões individuais que podem alterar o destino político do Executivo municipal.

A Comissão Processante é composta por:

  • Ben Hur
  • Paulinho Cabeleireiro
  • Nilso Vaz Torres

A condução institucional está sob responsabilidade do presidente da Casa, Eduardo Castilho. O vereador Fábio Pavoni tem defendido que o processo avance com rigor.

Nos bastidores, o ambiente é de tensão permanente.

  • Áudios circulam.
  • Conversas são comentadas.
  • Pressões são mencionadas em off.

Nada disso constitui prova formal.
Mas tudo compõe o cenário.

Quando sete votos definem um mandato, cada parlamentar deixa de ser coadjuvante.

Torna-se protagonista.

A Comissão será instrumento de apuração técnica
ou arena de disputa estratégica?

A pergunta divide plenário, redes sociais e corredores do poder.


ENTRE A LEI E A CIDADE REAL

Enquanto o embate institucional avança, a cidade segue.

A saúde enfrenta demanda crescente.
A educação convive com desafios estruturais.
A manutenção urbana exige recursos.
Terceirizados relatam dificuldades.

O valor em discussão — R$ 31 milhões — não é abstrato.

É orçamento.
É política pública.
É impacto direto na gestão municipal.

A decisão judicial deixou um recado claro:

Interesse público exige
motivação qualificada,
segurança jurídica
e responsabilidade fiscal.

Se houve precipitação, a cidade precisa saber.
Se houve erro técnico, precisa ser corrigido.
Se houve irregularidade, precisa ser apurada.

Mas há um risco paralelo:

Transformar um processo jurídico em guerra política.

A cassação de um prefeito não é ato trivial.
É ruptura institucional.
É redefinição de poder.
É impacto na estabilidade política e econômica do município.

O julgamento de Luiz Gustavo Botogoski será, na prática, um teste sobre:

  • Transparência
  • Responsabilidade fiscal
  • Independência da Câmara
  • Maturidade democrática

ENTRE R$ 31 MILHÕES, 7 VOTOS E UMA CIDADE EM SUSPENSE

Araucária não vive apenas uma crise política.

Vive uma crise de confiança.

A denúncia contra o prefeito está formalizada.
A decisão judicial foi técnica.
A reação política é estrutural.

Cargo público não é blindagem.
Mandato não é salvo-conduto.
Vereador não é espectador.

Quando um acordo milionário é suspenso pela Justiça por ausência de fundamentação robusta, o mínimo que se espera é apuração rigorosa — sem espetáculo, mas também sem complacência.

Se houver compra de voto parlamentar, é crime.
Se houver pressão institucional, é abuso.
Se houver desvio de finalidade, é irregularidade grave.

Mas acusações exigem prova.
E defesa exige espaço.

O que Araucária não pode aceitar é:

Silêncio conveniente.
Blindagem automática.
Cálculo político acima do interesse público.

A Comissão Processante será lembrada como marco de responsabilidade institucional
ou como símbolo de conveniência política?

Sete votos podem decidir um mandato.

Mas quem decide o rumo da cidade
é a consciência de cada parlamentar.

Araucária não é cifra.
Não é acordo.
Não é voto negociável.

É casa de milhares de famílias que esperam responsabilidade.

Sem gritos.
Sem teatro.
Sem guerra de versões.

Com lei.
Com transparência.
Com coragem.

A cidade está olhando.

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