13 de fevereiro de 2026 O pós-reality e o tribunal permanente da internet

O pós-reality e o tribunal permanente da internet

Fama instantânea, julgamento infinito. A vitrine que transforma anônimos em celebridades em poucos dias também pode convertê-los em réus perpétuos na arena digital. O debate reacendeu após um episódio exibido no Big Brother Brasil, envolvendo o paranaense Pedro e uma tentativa de beijo em Jordana. Fora da casa, a discussão ganhou vida própria: cortes virais, podcasts, comentários de ex-relacionamentos e uma enxurrada de opiniões que extrapolam o fato em si.

Dias depois, Pedro precisou de atendimento no Hospital San Julian, na Região Metropolitana de Curitiba, no município de Piraquara. Independentemente de versões, a pergunta central deixou de ser “o que ocorreu no programa” para se tornar “o que fazemos com quem erra em público”.


A economia da atenção premia intensidade. Um trecho de vídeo rende milhares de visualizações; uma opinião contundente, mais seguidores; um “lado” escolhido, mais engajamento. Nesse ciclo, o erro vira mercadoria e a dor, pauta contínua.

O fenômeno não é novo. Em Big Brother Brasil 2020, a cantora Karol Conká deixou a casa com rejeição recorde. A repercussão foi tão grande que a própria indústria do entretenimento precisou discutir limites de exposição e saúde mental de participantes. Anos antes, no Reino Unido, a apresentadora Caroline Flack enfrentou um cerco midiático que reacendeu debates sobre pressão pública e responsabilidade da mídia.

Em outra frente, casos fora do entretenimento também mostram a mesma lógica. Após a tragédia que vitimou Marília Mendonça, teorias, especulações e julgamentos se espalharam com velocidade impressionante, muitas vezes sem lastro factual — mas com alto potencial de engajamento.


No Paraná, o episódio envolvendo Betinho, que se perdeu no Pico Paraná, mostrou como a opinião pública pode se voltar contra pessoas periféricas ao fato. A jovem que o acompanhava foi julgada por meses nas redes, mesmo sem papel central na ocorrência. A comoção virou espetáculo; o espetáculo, narrativa permanente.

O padrão é reconhecível:

  1. Um fato gera comoção.
  2. A comoção cria plateia.
  3. A plateia atrai quem transforma o caso em palco.

Errar em público virou sentença perpétua?

Há uma diferença essencial entre responsabilização e aniquilação reputacional. A primeira é necessária numa sociedade que valoriza respeito e limites. A segunda é um atalho emocional que pouco contribui para aprendizado coletivo.

Nas redes, contexto evapora. Um recorte passa a valer mais que a história inteira. O pedido de desculpas raramente compete com o primeiro vídeo viral. E a reconstrução pessoal quase nunca recebe a mesma atenção que a queda.


A sociedade digital precisa redescobrir a proporcionalidade.

Debater comportamentos, refletir sobre consentimento, discutir limites — tudo isso é essencial e civilizatório. O que se perde quando a crítica vira perseguição é a própria finalidade do debate.

O tribunal da internet não tem juiz, não tem prazo e não oferece recurso. Ele opera por ondas de indignação que se retroalimentam. E, nesse processo, pessoas reais lidam com consequências emocionais profundas.

Isso não é sobre defender atitudes inadequadas. É sobre defender que a resposta social não seja maior que o fato.


O que os novos tempos exigem

Estamos numa transição cultural:

  • Da privacidade para a hiperexposição;
  • Da conversa para o recorte;
  • Do contexto para a viralização;
  • Da crítica para o cancelamento.

Os novos tempos pedem novas responsabilidades:

Para quem produz conteúdo: ética antes do clique.
Para quem consome: reflexão antes do compartilhamento.
Para a sociedade: proporcionalidade antes do julgamento.


A pergunta que fica

Talvez a discussão não seja apenas sobre o que aconteceu no reality.

Talvez seja sobre quem estamos nos tornando enquanto plateia.

Porque, quando a dor do outro vira entretenimento, o problema já não está só no fato — está na forma como escolhemos reagir a ele.

E amanhã, o julgado pode ser qualquer um de nós.

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