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EDITORIAL | Sátira, poder e os limites da democracia

Por Marcello Sampaio

A sátira política sempre foi um termômetro das tensões de uma sociedade. Quando o humor escancara o desconforto, não é porque inventa a crise, mas porque revela aquilo que muitos já sentem, comentam e temem — ainda que em silêncio. Em democracias maduras, a caricatura não é crime; é crítica. E a crítica é parte essencial da liberdade.

O debate internacional envolvendo líderes, sanções, discursos duros e enfrentamentos institucionais mostra que o poder não é absoluto e que figuras públicas estão, inevitavelmente, expostas ao escrutínio. Quando uma charge compara situações globais distintas, ela não sentencia fatos: provoca reflexão. É um recurso histórico para questionar excessos, contradições e o risco de concentração de autoridade.

No Brasil, a tensão entre instituições, política e opinião pública ganhou novos contornos nos últimos anos. Decisões judiciais passaram a ser debatidas fora dos tribunais, nas ruas e nas redes. Isso não significa ataque à Justiça; significa que a sociedade cobra transparência, proporcionalidade e limites claros. Onde há poder, deve haver contraponto. Onde há autoridade, deve haver responsabilidade.

A sátira cumpre exatamente esse papel: incomodar. Ela força o debate sobre até onde vai a influência, onde começa o abuso e quem fiscaliza os fiscais. Não se trata de afirmar crimes ou rotular pessoas, mas de perguntar — e perguntar alto — se os freios institucionais continuam funcionando como deveriam.

Silenciar o humor político não fortalece a democracia; enfraquece. Transformar críticas em tabu cria mártires e aprofunda a desconfiança. A história mostra que regimes seguros de si não temem charges, editoriais duros ou ironias afiadas. Pelo contrário: convivem com elas.

Neste cenário global de disputas narrativas, sanções internacionais, polarização e radicalização do discurso, a imprensa tem um dever claro: não torcer, não julgar previamente, mas provocar reflexão. A sátira não condena — ela questiona. E questionar é um direito de toda sociedade que ainda se pretende livre.

Democracia não é unanimidade.
É confronto de ideias.
E ideias não devem pedir permissão para existir.

Marcello Sampaio
Tribuna da Cidade

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