A internet ampliou o acesso ao conhecimento, aproximou pessoas e transformou a forma como crianças e adolescentes aprendem e se relacionam. No entanto, o ambiente digital também se consolidou como um espaço público de risco, capaz de gerar danos emocionais profundos, exposição precoce à sexualização e, em casos extremos, violência física e sexual.

A falsa sensação de segurança — de que o mundo virtual é privado por acontecer “dentro de casa” — tem sido um dos principais fatores de vulnerabilidade. Especialistas alertam: a violência também acontece online, muitas vezes de forma silenciosa, mascarada e contínua.
Softporn: o risco invisível que normaliza a sexualização precoce

Mesmo com políticas das grandes plataformas proibindo conteúdos sexuais, cresce a circulação do chamado softporn — materiais com forte apelo sexual, porém sem nudez explícita. São vídeos, imagens e comportamentos sugestivos que escapam da moderação automática e alcançam crianças e adolescentes de forma despretensiosa.
Segundo pesquisas nacionais, 60% das crianças entre 9 e 10 anos que usam a internet já possuem conta em pelo menos uma rede social, apesar da idade mínima oficial ser 13 anos. Essa exposição precoce torna o impacto ainda mais grave.

A psicóloga Renata Panico Gorayeb, especialista em desenvolvimento infantil, alerta que o softporn produz efeitos tão nocivos quanto a pornografia explícita:
“Esse tipo de conteúdo banaliza os relacionamentos, sexualiza precocemente a criança e compromete a construção da autoestima. A criança passa a acreditar que aquele comportamento é aceitável para qualquer idade.”
Entre os sinais de alerta estão mudanças bruscas de comportamento, vergonha do próprio corpo, linguagem sexualizada inadequada para a idade e aproximação física excessiva de outras crianças ou adultos.
Quando o algoritmo falha, o dano se multiplica
Estudos internacionais apontam que algoritmos de redes sociais tendem a impulsionar conteúdos sexualizados, mesmo quando não violam explicitamente as regras. Esse mecanismo amplia o alcance de imagens sugestivas, facilitando o contato repetido e normalizando padrões inadequados para o público infantojuvenil.
Para a jurista Cíntia Rosa Pereira de Lima, especialista em direito digital e proteção da infância, isso exige responsabilidade das plataformas:

“Ao bonificar o engajamento desse tipo de material, o algoritmo facilita o acesso e amplia o risco. A legislação brasileira permite responsabilização civil dos provedores quando há conteúdo com apelo sexual envolvendo crianças.”
O Marco Civil da Internet e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) permitem que conteúdos sejam denunciados e removidos sem necessidade de ordem judicial quando envolvem risco à criança ou ao adolescente.
O papel decisivo das forças de segurança e das Guardas Municipais
Diante do avanço dos crimes digitais, cresce a importância do trabalho das delegacias especializadas em crimes cibernéticos, da Polícia Civil, da Polícia Militar e das Guardas Municipais, que vêm ampliando ações preventivas, educativas e operacionais.
Em muitos municípios, as Guardas Municipais atuam diretamente em:
- Palestras educativas em escolas
- Orientações a pais e responsáveis
- Apoio a investigações digitais
- Proteção de vítimas e encaminhamento à rede de atendimento
Um agente da área de segurança digital, que atua em cooperação com forças municipais, resume:
“Hoje, o abuso nem sempre começa com contato físico. Ele nasce na tela do celular. Por isso, prevenção, orientação e monitoramento são tão importantes quanto repressão.”

Pais ouvidos pela reportagem relatam preocupação crescente. A auxiliar administrativa Mariana S., mãe de uma menina de 10 anos, conta:
“Achei que os vídeos eram inocentes, mas percebi mudanças no comportamento da minha filha. Hoje acompanho tudo de perto e converso abertamente.”
Já o motorista Carlos R., pai de dois adolescentes, reforça:
“Não dá para terceirizar a educação digital. Se os pais não estiverem presentes, alguém estará — e nem sempre com boas intenções.”
Especialistas recomendam:
- Monitorar aplicativos e redes acessadas
- Restringir conteúdos e publicidade
- Orientar sobre exposição de imagem e dados pessoais
- Manter diálogo constante, sem punições automáticas

A educação midiática surge como estratégia central para reduzir riscos. Ensinar crianças e adolescentes a interpretar conteúdos, questionar padrões e compreender consequências reais do ambiente digital é fundamental.
Como destaca a jurista Cíntia Pereira:
“Existe uma falsa ideia de que o que acontece na internet não tem consequências reais. Isso é um erro grave. Educação é a chave para formar usuários críticos e protegidos.”
Um desafio coletivo que exige resposta imediata
A proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital não é responsabilidade exclusiva das famílias, nem apenas do Estado. É uma tarefa coletiva que envolve escolas, plataformas, forças de segurança, órgãos públicos e a sociedade como um todo.
O avanço da tecnologia exige vigilância permanente, legislação aplicada com rigor e presença ativa das instituições de segurança — incluindo as Guardas Municipais — que estão cada vez mais na linha de frente da prevenção.

A internet não é território neutro. É espaço público, com riscos reais e vítimas reais. Ignorar o avanço da sexualização precoce no ambiente digital é fechar os olhos para uma violência silenciosa que se instala todos os dias nos celulares das crianças.
Não basta confiar em algoritmos ou termos de uso. É preciso educação, fiscalização, denúncia e atuação firme das forças de segurança. Proteger crianças não é censura — é dever constitucional.
Enquanto a tecnologia avança, a responsabilidade precisa avançar junto. O silêncio, neste caso, também machuca.
Créditos:
Marcello Sampaio
Direto da Redação – Tribuna da Cidade

