Levantamento exclusivo do Tribuna da Cidade revela que o projeto já consumiu quase R$ 25 milhões em recursos públicos em apenas três anos. Especialistas cobram transparência ativa, planilha única e explicações diretas do governo.
Por Marcello Sampaio
Tribuna da Cidade
Com apoio da Equipe de Investigação & Compliance do Grupo VPX de Comunicação

O que começou como um programa de incentivo ao esporte, saúde e lazer popular se transformou, em poucos anos, em uma das operações culturais mais caras do Estado do Paraná.
O Verão Maior Paraná, apresentado oficialmente como política pública de fomento ao turismo e à cultura, saiu de um modelo enxuto — baseado em kits esportivos, ações de saúde preventiva e atividades comunitárias — para uma estrutura marcada por contratos milionários, cachês elevados e custos operacionais robustos.
Um levantamento investigativo exclusivo do Tribuna da Cidade, baseado exclusivamente em documentos oficiais já publicados, mostra que o projeto já comprometeu ao menos R$ 24.957.967,19 entre 2024 e 2026.
E esse número não é o teto.
É o piso comprovado.
O valor não inclui aditivos, contratos paralelos, publicidade institucional, despesas diluídas em outras secretarias nem custos indiretos não identificados explicitamente como parte do projeto.

A escalada dos gastos: os números que contam a história
2024 — R$ 7.599.236,56
Foi o ano em que o Verão Maior Paraná passou a aparecer de forma estruturada nos registros públicos.
- R$ 1,55 milhão em pagamento de direitos autorais ao ECAD
- R$ 5,78 milhões em estrutura, recursos humanos, materiais e ambulâncias
- R$ 253,5 mil em atrações diretamente vinculadas à operação
2025 — R$ 14.943.730,63
Aqui ocorre a explosão orçamentária.
- R$ 13,26 milhões apenas em cachês de artistas nacionais
- R$ 664,8 mil em atrações locais (inexigibilidades e Termos de Execução Cultural)
- R$ 1,0 milhão em logística, apoio e estrutura
2026 — R$ 2.415.000,00 (até agora)
Mesmo antes da execução completa:
- R$ 2,2 milhões já comprometidos somente com ECAD
- R$ 180 mil com artistas paranaenses
- R$ 35 mil em contratação por dispensa
Total já identificado (2024–2026): R$ 24.957.967,19
Este valor representa apenas os contratos que fazem menção expressa ao Verão Maior Paraná ou à Operação Verão Maior (OPV).

Onde está a planilha completa?
Os shows acontecem.
Os palcos são montados.
Os artistas sobem ao palco.
Mas a planilha consolidada, clara e acessível ao cidadão comum não aparece.
Os gastos estão fragmentados em dezenas de contratos, modalidades distintas, órgãos diferentes e exercícios cruzados. Para o contribuinte, compreender o custo real da festa exige um trabalho técnico de consolidação — exatamente o que esta reportagem realizou.
Transparência ativa não é publicar pedaços.
Transparência ativa é consolidar o todo.

Em versões anteriores, quando o projeto ainda estava vinculado à Secretaria de Esportes, o foco era outro:
- kits esportivos para a população
- ações permanentes de saúde e bem-estar
- atividades continuadas para comunidades locais
Hoje, o eixo central migra para grandes contratações artísticas e operações de alto custo.
A mudança de modelo não é ilegal.
Mas exige explicações proporcionais ao dinheiro investido.

Ao secretário Hélio Werbiski
- Onde está a planilha única, clara e auditável do Verão Maior Paraná?
- Quais critérios técnicos justificam cachês elevados e o uso recorrente de inexigibilidade?
- Como o governo mede o retorno econômico real do projeto? Há dados verificáveis?
Ao governador Ratinho Junior
- Qual é o custo total consolidado do Verão Maior Paraná?
- Por que o projeto salta de R$ 0 para dezenas de milhões em curto espaço de tempo?
- Por que não há transparência ativa, com relatório anual completo e acessível?

Fontes do próprio setor artístico relatam, de forma informal, que comissões e intermediações são práticas conhecidas no mercado de shows públicos.
Isso não configura prova de irregularidade.
Mas reforça a necessidade de investigação técnica quando há:
- repetição de inexigibilidades de alto valor
- concentração de contratos
- crescimento abrupto de despesas
Cabe ao Ministério Público, Tribunais de Contas e Assembleia Legislativa apurar se houve ou não desvios.
À imprensa, cabe provocar, questionar e exigir explicações.

Com R$ 25 milhões, seria possível:
- reforçar unidades de saúde
- ampliar efetivos de segurança pública
- investir em escolas e programas permanentes
- estruturar cultura continuada, não apenas eventos sazonais
O debate não é “show versus cultura”.
É prioridade, proporcionalidade e transparência.

Não existe política pública imune à fiscalização.
E festa pública não suspende a obrigação de prestar contas.
Quando quase R$ 25 milhões saem do bolso do contribuinte em poucos anos, o mínimo esperado é:
- planilha consolidada
- critérios objetivos
- estudos de retorno
- explicações diretas
O cidadão não é plateia.
É financiador.
Se o projeto é bom, prove com dados.
Se gera retorno, publique os números.
Se é prioridade, assuma o custo com transparência total.
Silêncio administrativo, diante de valores crescentes, não protege governos.
Provoca investigações.
Créditos
Marcello Sampaio
Jornalista — Tribuna da Cidade
Equipe de Investigação & Compliance
Grupo VPX de Comunicação

