11 de janeiro de 2026 Internet sem vigilância expõe crianças a riscos reais e exige ação conjunta de famílias, Estado e forças de segurança

Internet sem vigilância expõe crianças a riscos reais e exige ação conjunta de famílias, Estado e forças de segurança

A internet ampliou o acesso ao conhecimento, aproximou pessoas e transformou a forma como crianças e adolescentes aprendem e se relacionam. No entanto, o ambiente digital também se consolidou como um espaço público de risco, capaz de gerar danos emocionais profundos, exposição precoce à sexualização e, em casos extremos, violência física e sexual.

A falsa sensação de segurança — de que o mundo virtual é privado por acontecer “dentro de casa” — tem sido um dos principais fatores de vulnerabilidade. Especialistas alertam: a violência também acontece online, muitas vezes de forma silenciosa, mascarada e contínua.

Softporn: o risco invisível que normaliza a sexualização precoce

Mesmo com políticas das grandes plataformas proibindo conteúdos sexuais, cresce a circulação do chamado softporn — materiais com forte apelo sexual, porém sem nudez explícita. São vídeos, imagens e comportamentos sugestivos que escapam da moderação automática e alcançam crianças e adolescentes de forma despretensiosa.

Segundo pesquisas nacionais, 60% das crianças entre 9 e 10 anos que usam a internet já possuem conta em pelo menos uma rede social, apesar da idade mínima oficial ser 13 anos. Essa exposição precoce torna o impacto ainda mais grave.

A psicóloga Renata Panico Gorayeb, especialista em desenvolvimento infantil, alerta que o softporn produz efeitos tão nocivos quanto a pornografia explícita:

“Esse tipo de conteúdo banaliza os relacionamentos, sexualiza precocemente a criança e compromete a construção da autoestima. A criança passa a acreditar que aquele comportamento é aceitável para qualquer idade.”

Entre os sinais de alerta estão mudanças bruscas de comportamento, vergonha do próprio corpo, linguagem sexualizada inadequada para a idade e aproximação física excessiva de outras crianças ou adultos.

Quando o algoritmo falha, o dano se multiplica

Estudos internacionais apontam que algoritmos de redes sociais tendem a impulsionar conteúdos sexualizados, mesmo quando não violam explicitamente as regras. Esse mecanismo amplia o alcance de imagens sugestivas, facilitando o contato repetido e normalizando padrões inadequados para o público infantojuvenil.

Para a jurista Cíntia Rosa Pereira de Lima, especialista em direito digital e proteção da infância, isso exige responsabilidade das plataformas:

“Ao bonificar o engajamento desse tipo de material, o algoritmo facilita o acesso e amplia o risco. A legislação brasileira permite responsabilização civil dos provedores quando há conteúdo com apelo sexual envolvendo crianças.”

O Marco Civil da Internet e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) permitem que conteúdos sejam denunciados e removidos sem necessidade de ordem judicial quando envolvem risco à criança ou ao adolescente.

O papel decisivo das forças de segurança e das Guardas Municipais

Diante do avanço dos crimes digitais, cresce a importância do trabalho das delegacias especializadas em crimes cibernéticos, da Polícia Civil, da Polícia Militar e das Guardas Municipais, que vêm ampliando ações preventivas, educativas e operacionais.

Em muitos municípios, as Guardas Municipais atuam diretamente em:

  • Palestras educativas em escolas
  • Orientações a pais e responsáveis
  • Apoio a investigações digitais
  • Proteção de vítimas e encaminhamento à rede de atendimento

Um agente da área de segurança digital, que atua em cooperação com forças municipais, resume:

“Hoje, o abuso nem sempre começa com contato físico. Ele nasce na tela do celular. Por isso, prevenção, orientação e monitoramento são tão importantes quanto repressão.”

Pais ouvidos pela reportagem relatam preocupação crescente. A auxiliar administrativa Mariana S., mãe de uma menina de 10 anos, conta:

“Achei que os vídeos eram inocentes, mas percebi mudanças no comportamento da minha filha. Hoje acompanho tudo de perto e converso abertamente.”

Já o motorista Carlos R., pai de dois adolescentes, reforça:

“Não dá para terceirizar a educação digital. Se os pais não estiverem presentes, alguém estará — e nem sempre com boas intenções.”

Especialistas recomendam:

  • Monitorar aplicativos e redes acessadas
  • Restringir conteúdos e publicidade
  • Orientar sobre exposição de imagem e dados pessoais
  • Manter diálogo constante, sem punições automáticas

A educação midiática surge como estratégia central para reduzir riscos. Ensinar crianças e adolescentes a interpretar conteúdos, questionar padrões e compreender consequências reais do ambiente digital é fundamental.

Como destaca a jurista Cíntia Pereira:

“Existe uma falsa ideia de que o que acontece na internet não tem consequências reais. Isso é um erro grave. Educação é a chave para formar usuários críticos e protegidos.”

Um desafio coletivo que exige resposta imediata

A proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital não é responsabilidade exclusiva das famílias, nem apenas do Estado. É uma tarefa coletiva que envolve escolas, plataformas, forças de segurança, órgãos públicos e a sociedade como um todo.

O avanço da tecnologia exige vigilância permanente, legislação aplicada com rigor e presença ativa das instituições de segurança — incluindo as Guardas Municipais — que estão cada vez mais na linha de frente da prevenção.

A internet não é território neutro. É espaço público, com riscos reais e vítimas reais. Ignorar o avanço da sexualização precoce no ambiente digital é fechar os olhos para uma violência silenciosa que se instala todos os dias nos celulares das crianças.

Não basta confiar em algoritmos ou termos de uso. É preciso educação, fiscalização, denúncia e atuação firme das forças de segurança. Proteger crianças não é censura — é dever constitucional.

Enquanto a tecnologia avança, a responsabilidade precisa avançar junto. O silêncio, neste caso, também machuca.

Créditos:
Marcello Sampaio
Direto da Redação – Tribuna da Cidade

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